quarta-feira, 9 de novembro de 2011

A multidão é a força e a democracia

A partir do momento em que camadas diversas da sociedade se veem acuadas pelo mesmo inimigo, passa a se formar uma resistência diferente daquela que é vista em manifestações pontuais. Neste levante não participam apenas os trabalhadores exacerbadamente explorados pelo empresariado ou os estudantes que tem de arcar com mensalidades absurdas para ter uma educação de qualidade; tampouco não atuam sozinhos os moradores de rua reivindicando moradias minimamente dignas ou os ativistas que lutam contra grandes corporações que poluem o meio ambiente. Todos aqueles que se sentem de alguma forma injustiçados pelo atual "sistema" se empenham, então, em buscar uma maneira uniforme de enfrentá-lo. Ao vislumbrar um opressor comum, os oprimidos citados engajam-se agora por objetivos similares: contestar, enfrentar e, por fim, derrubar o "império".
          O questionamento quanto aos mecanismos que regem a ordem mundial atual leva a uma unicidade no que diz respeito ao modo de agir. A mesma interligação em redes que permite laços de colaboração entre os líderes das nações mais poderosas do mundo, oferece às massas potencialmente revoltosas meios de ganhar força. Independente do idioma, classe social ou motivo de indignação, as multidões separadas geograficamente ou ideologicamente tendem a unir-se numa mesma grande "multidão".
      As manifestação iniciada na Líbia, no início do ano, por exemplo, desencadeou centenas de outras manifestações semelhantes no mundo árabe. Diante da fome e da repressão militar, milhões foram às ruas na Tunísia, Egito, Síria, Arábia Saudita e outros países árabespara lutar pela queda de verdadeiros impérios. Após verdadeiras batalhas, a Primavera Árabe teve (e continua tendo) consequêcias históricas, como a renúncia do ditador Hosni Mubarak, no Egito, e uma guerra civil que culminou na morte de Muammar Gadaffi, na Líbia.
        Mesmo tendo nascido em países dominados por densas ditaduras, onde as opressões são muito mais abrangentes, as revoltas no Oriente Médio e África deram mostras de que a mobilização organizada pode provocar grandes mudanças.
        Posteriormente, outra forma de resistência, em situações diferentes, surgiu. A chamada "democracia" instituída nos países desenvolvidos foi abalada por contradições que expuseram às populações a impotência que têm as camadas dominadas diante das decisões dos poderosos imperialistas. Assim, após as insurreições nos países árabes que viviam sob governos ditatoriais, foi a vez dos países afligidos pela crise financeira assistirem às multidões saindo às ruas em sinal de indignação. Espanha, Grécia, Itália e Estados Unidos são alguns dos países que tiveram praças de suas principais cidades tomadas por manifestantes exigindo mudanças na política econômica. A maneira pela qual são geridos os Estados e negociadas as dívidas bilionárias com bancos privados,sobretudo na União Europeia, passou a ser questionada pelos manifestantes. A irresponsabilidade dos chefes de Estado e banqueiros demonstrou ser a principal causa do refluxo de capital, que deteriora as condições sociais dos povos.
        Dessa forma, até mesmo membros dos setores mais conservadores da sociedade deram corpo aos protestos. Na Espanha e na Grécia, onde o desemprego bate recordes, muitos profissionais liberais juntaram-se às grandes massas acampadas nas praças das capitais. Nos Estados Unidos, no acampamento montado em Wall Street (coração financeiro da América), empresários falidos e executivos demitidos têm engrossado o coro daqueles que se revoltam diante das ações indiscriminadas de bancos e Estados nas questões financeiras. 
        Ao passo que as diversas multidões tem sentido na pele as aflições causadas pela atual ordem mundial, vêm aumentando os clamores por mudanças; de tal forma que o movimento iniciado na Europa, passando pelos Estados Unidos, chegou aos países menos desenvolvidos. Por meio da mobilização em redes sociais, o número de "multidões" aumentou, com a adesão de manifestantes em mais de 900 cidades em todo o mundo. A resistência ao domínio dos detentores do grande capital chegou até mesmo em lugares onde a crise financeira ainda não causou grandes mazelas, onde a economia aparentemente só tem avançado. Nesses países, incluindo o Brasil, as mobilizações foram menores, mas menteve o mesmo posicionamento: contra a política econômica atual, pela maior participação do povo nas decisões políticas e pelo fim do capitalismo, neste caso a verdadeira autoridade por trás do "Império". 

7 comentários:

  1. Laura Nogueira Pereira RA000967596 de dezembro de 2011 às 13:14

    Achei extremamente importante e inteligente a maneira que vocês abordaram o tema, colocando em pauta ações que estão tão próximas do cidadão brasileiro, e que muitas vezes ele não enxerga como uma maneira de manifestação, mas é “militância pura”. Creio que embora a multidão esteja cada vez mais organizada, e que em alguns casos consiga concretizar os seus objetivos, o sistema ainda é muito forte, e alguns aspectos, invencível. Isso porque a organização e conscientização das massas ainda não são inteiramente suficientes para enfrentar e derrubar o sistema, na verdade a maior questão é exatamente a primeira, porque uma vez conscientizada, e com o propósito de mudar a situação, a organização acaba por ocorrer naturalmente, mas essa conscientização é difícil. O cidadão só consegue enxergar a exploração pura e explícita, e a repressão em forma de ditadura, ainda acredita na democracia, e no ser livre. Achei também muito interessante a citação dos meios de comunicação de massa atuais, como as redes sociais, de forma que se tornem ferramentas essenciais nas manitestações da multidão.

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  3. Ótimo texto. Traçou um panorama sólido do conceito "multidão".

    É praticamente impossível falarmos em multidão sem mencionar os últimos acontecimentos, como a Primavera Árabe e o Occupy Wall Street. E o mais interessante é ver com os próprios olhos seu poder de derrubar ditaduras, ir de encontro da soberania, do governo uno. E é na multidão que o conceito de democracia toma corpo; é nela que a desobediência, a pluralidade e as diferenças coexistem. Muito embora a qualidade dessas manifestações políticas sejam questionadas por intelectuais, sociólogos e até mesmo pelo próprio povo, ora pela falta de objetivo, ora pela falta de organização.

    De qualquer forma, a multidão mostra-se ferramenta essencial para o funcionamento da real democracia.

    Débora Lopes
    RA00067603

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  4. Parabéns, queridos. Muito bom o texto de vocês!

    A partir do momento em que a população percebe que pode fazer a diferença quando junta forças, ocorrem eventos como as recentes ocupações de espaços públicos na Europa, Estados Unidos e até mesmo no Brasil, e a Primavera Árabe, que vocês exemplificaram no texto.

    Achei muito legal vocês trazerem o tema para a atualidade com os exemplos e com a citação do importante papel das redes sociais em tudo isso.

    Jéssica Gomes Portasio
    RA00095386

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  5. Um dos melhores texto sobre a multidão!

    Vocês conceituaram muito bem o tema, principalmente com a citação de exemplos atuais, o que proporciona fácil intendimento do texto.
    É válido lembrar que existe uma falsa realidade de liberdade e que o império ainda é muito opressor.
    Outro ponto importante a ser reforçado, é que o todos os conflitos aqui citados giram em torno do capitalismo, comprovando-se assim algumas das teorias do velho Marx.
    É fundamental que a população mostre sua força e vontade perante o império, mesmo com as massas ainda sendo minorias.
    Enfim, parabéns pelo texto, muito bem escrito.

    Fellipe M. de Aquino
    RA00071916

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  6. Parabens a todos do VirtudeSobra, pois acredito ser o blog que conseguiu melhor sintetizar e encurtar textos, sem pecar na qualidade. Gostei do jeito que abordaram o tema, desenrolaram a explicação e os exemplos utilizados. Só acredito que deveriam incluir a Irlanda nos países afetados pela crise Europeia.

    De novo, parabéns pelo texto, a multidão deve sim se mobilizar.

    Mateus Maropo 00067670

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  7. Ótimo texto, sem dúvida um dos melhores sobre A Multidão. A questão fica muito mais fácil de ser compreendida quando contextualizamos, ainda mais numa época de tanta mobilização social. É interessante também abordar o papel da internet nesse processo, que além de dar a multidão, e aí podemos dizer mundial, pois lutam por causas semelhantes, esse sentido de unidade, também interfere em lutas paralelas. Vemos, atualmente, uma massa que se mobiliza pela mesma causa, ainda que aplicado a contextos sociais destintos e vemos aflorar nas multidões um sentido de democracia coletiva, de desejo de coletivo, um sentido real de coletividade.

    Paula Vidal Dizioli Fernandes - RA00095366

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